9.10.23

Mike Cooper e os flamingos hipnóticos do apocalipse

Mike Cooper, com o seu distinto fato vermelho, chapéu de palha, e não uma, mas sim duas, camisas havaianas (uma em tons de azul, outra em tons de verde), senta-se à mesa e anuncia um concerto de “jazz karaoke”. Mais do que uma indicação de que estão prestes a dar início a uma apresentação do recente álbum Black Flamingo, recorrendo a faixas pré-gravadas, alguns loops e outros sons que se julgam ser de universos paralelos, Mike Cooper afina as palavras de rejeição de seriedade na música. Em grande parte, isto explica o percusso de um guitarrista de blues, que após um notável período na cena musical inglesa dos anos 1960, encontrou no jazz dos anos 1970 e nas múltiplas variantes da música improvisada, uma forma de expressão única. Ele tanto busca seiva no free jazz como na sensualidade da guitarra slide havaiana, e nas ambiências soporíferas de gravações de campo, e sobretudo (aqui está o cerne da não-seriedade), nas experiências sonoras com Lol Coxhill, a quem atribui a magia de encontrar humor na música. É nesta amálgama de ideias sonoras, algumas aparentemente díspares, que Mike Cooper, navegante incansável desde tenra idade (já tem 81 anos), improvisa o tal ‘jazz karaoke’ de Black Flamingo, para nos deixar à deriva entre a música eletroacústica, o blues mais hipnótico e abstrato, e todo o exotismo possível da música improvisada.


Na ausência de Geoff Hawkins e Aaron Hawkins, por questões de saúde, teve ao seu lado, em stereo tecnicolor, Pat Thomas, no piano e aplicações de iPad, e Tim Hill, no clarinete e saxofones. Talvez o verdadeiro “karaoke” só tenha acontecido na única música cantada do disco, The Satellites Are Spinning (de tonalidades a fazer lembrar um Willie Nelson, mas em ácidos), porque o resto da viagem continuou a dissolver elementos, géneros e estilos musicais pré-desancorados no disco e aqui deixados à solta. Cooper deu prevalência às eletrónicas, dando apenas toques pontuais de guitarra slide; Thomas deu seguimento aos ruídos misteriosos pré-gravados, apenas entrecortados por momentos episódicos e repetitivos de piano; e Tim Hill, ao ter de preencher os lugares dos dois Hawkins, esqueceu-se dos silêncios entre as diferentes partes, que poderiam bem melhor respirar com os interlúdios de Black Flamingo, com o sugestivo título “Sun Ra Socks”. No entanto, não chega um imaginário de Sun Ra e de um Willie Nelson em ácidos, para explicar a música de Mike Cooper. Há também aqui uma dose de loucura vs. humor que pode (e deve) existir no coração das trevas. No auge da performance, entre a escuridão e visão colorida, sobrevive uma personagem de Twin Peaks, o Dr. Lawrence Jacoby, também colecionador de camisas havaianas, a lembrar o fascínio pela excentricidade num mundo misterioso e enigmático. Curiosamente, Mike Cooper inventou num dos seus filmes (Hotel Hibiscus City), um personagem chamado Agent Kupa, enviado ao planeta Terra para investigar a cura para um vírus que fazia as pessoas dançar loucamente sempre que ouviam música em alto volume. Não é de estranhar. Se nos deixássemos de tanta seriedade nestas coisas da música avant-garde e afins, estaríamos todos a dançar loucamente ao ouvir este karaoke de jazz monumental que é Black Flamingo.


Na primeira parte, Chris Rainer trouxe ao Café Oto duas réplicas de guitarras microtonais adaptadas por Harry Partch, inventor de instrumentos únicos. A primeira guitarra, com seis cordas (três duplas), uma rica variedade de trastes, e dois ou três capo-dastros, emana um autêntico primitivismo americano, combinando a sonoridade de um instrumento realmente primitivo com a essência de uma América que apenas existe no âmago de um estudo profundo. A segunda guitarra é uma espécie de guitarra slide havaiana, sem trastes, e tocada com um slide de Pirex. O braço está marcado com múltiplos pontos coloridos, e tem dez cordas. Rainer apenas tocou uma composição com esta segunda guitarra. As demais seguiram os padrões do mais recente álbum Sorrowful Songs of the Silverswords, no qual Rainer explora as ambivalências microtonais de um instrumento que parece tão meticuloso de tocar como de construir.



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