Na ausência de Geoff Hawkins e Aaron Hawkins, por questões de saúde, teve ao seu lado, em stereo tecnicolor, Pat Thomas, no piano e aplicações de iPad, e Tim Hill, no clarinete e saxofones. Talvez o verdadeiro “karaoke” só tenha acontecido na única música cantada do disco, The Satellites Are Spinning (de tonalidades a fazer lembrar um Willie Nelson, mas em ácidos), porque o resto da viagem continuou a dissolver elementos, géneros e estilos musicais pré-desancorados no disco e aqui deixados à solta. Cooper deu prevalência às eletrónicas, dando apenas toques pontuais de guitarra slide; Thomas deu seguimento aos ruídos misteriosos pré-gravados, apenas entrecortados por momentos episódicos e repetitivos de piano; e Tim Hill, ao ter de preencher os lugares dos dois Hawkins, esqueceu-se dos silêncios entre as diferentes partes, que poderiam bem melhor respirar com os interlúdios de Black Flamingo, com o sugestivo título “Sun Ra Socks”. No entanto, não chega um imaginário de Sun Ra e de um Willie Nelson em ácidos, para explicar a música de Mike Cooper. Há também aqui uma dose de loucura vs. humor que pode (e deve) existir no coração das trevas. No auge da performance, entre a escuridão e visão colorida, sobrevive uma personagem de Twin Peaks, o Dr. Lawrence Jacoby, também colecionador de camisas havaianas, a lembrar o fascínio pela excentricidade num mundo misterioso e enigmático. Curiosamente, Mike Cooper inventou num dos seus filmes (Hotel Hibiscus City), um personagem chamado Agent Kupa, enviado ao planeta Terra para investigar a cura para um vírus que fazia as pessoas dançar loucamente sempre que ouviam música em alto volume. Não é de estranhar. Se nos deixássemos de tanta seriedade nestas coisas da música avant-garde e afins, estaríamos todos a dançar loucamente ao ouvir este karaoke de jazz monumental que é Black Flamingo.
Na primeira parte, Chris Rainer trouxe ao Café Oto duas réplicas de guitarras microtonais adaptadas por Harry Partch, inventor de instrumentos únicos. A primeira guitarra, com seis cordas (três duplas), uma rica variedade de trastes, e dois ou três capo-dastros, emana um autêntico primitivismo americano, combinando a sonoridade de um instrumento realmente primitivo com a essência de uma América que apenas existe no âmago de um estudo profundo. A segunda guitarra é uma espécie de guitarra slide havaiana, sem trastes, e tocada com um slide de Pirex. O braço está marcado com múltiplos pontos coloridos, e tem dez cordas. Rainer apenas tocou uma composição com esta segunda guitarra. As demais seguiram os padrões do mais recente álbum Sorrowful Songs of the Silverswords, no qual Rainer explora as ambivalências microtonais de um instrumento que parece tão meticuloso de tocar como de construir.

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