O que pulveriza a Jesus Blood Never Failed Me Yet de espiritualidade não são as palavras de um cântico religioso antigo a invocar Jesus (o corpo, o sangue de Cristo) ou o sentimento de redenção, a crença de olhos fechados na palavra do profeta, sendo esta palavra a verdade, o amor, a simplicidade-mor do sagrado. Pode-se até despojar o cântico do significado das palavras, imaginá-lo abstrato, sons puros, sem significado. São as palavras que ficam sempre bem, independentemente da crença e do embaraço provocado num ateu. Porque o mundo da música pop foi sempre um pomar de referências religiosas - oh god, oh lord, oh jesus - na voz das maiores divindades do palco, de Nick Cave a Patti Smith, de Spiritualized a John Lennon. A frisar, “do palco”, porque no altar a dimensão já não é bem a mesma. A Jesus Blood... não tem sequer origens em leituras de bíblia ou de outros tomos sagrados. Foi uma voz que ficou entre muitas outras nas gravações para um documentário sobre os sem-abrigo de Elephant & Castle na zona sul de Londres em finais de 1960s, princípios de 1970s. Era habitual (sinais dos tempos hippies, da explosão pop, talvez) uma performance impromptu, devidamente doseada com o elixir da embriaguez (o homem que canta Jesus Blood... não bebia, é preciso dizer), e muitas dessas gravações para o documentário foram cedidas pelo diretor ao amigo Gavin Bryars, para puro aproveitamento da fita, reciclagem para coisas gravações mais úteis, talvez uma banda-sonora. Porém, dificilmente se resiste à tentação de ouvir pelo menos uma vez aquilo que se está prestes a apagar, ou como se diz comummente “gravar por cima'”. Bryars ouviu aquela parte da gravação e percebeu que não era uma gravação qualquer. Havia nela mistério, emoção, profundidade enigmática e, acima de tudo, estava em sintonia perfeita com a afinação do piano dele e matematicamente certa para treze compassos. Mais convencido ficou disso, quando deixou o loop a gravar numa das salas da universidade onde trabalhava e, enquanto foi buscar um café, reparou que o habitual eco dos corredores se havia dissipado por alguns instantes. Quando regressou deparou-se com as pessoas a ouvirem atentamente o cântico, algumas emocionadas: “Jesus blood never failed me yet / It's one thing I know / That he loves me so”.
Eis os elementos necessários para a meditação profunda através dos códigos sonoros das canções: uma amálgama emotiva misteriosa e indescritível (com raízes na espiritualidade melódica), e a repetição. Refira-se ainda aqui a expansividade da forma, um loop de fita magnética que se expande até ao limite da duração do formato físico. A primeira versão de Jesus Blood teve a duração de vinte e cinco minutos, gravada em dezembro 1972 no Queen Elisabeth Hall, para o lado A do primeiro disco da editora Obscure Records de Brian Eno. Foi esta a versão que foi parar às mãos de Tom Waits e se tornou objeto de adoração deste, ao ponto de se ter tornado o seu disco perdido preferido. Um dia, em digressão no Reino Unido, telefonou a Bryars a dizer-lhe que havia perdido o disco e que gostaria de ter uma nova cópia... ora, a apreciação artística deveria ser mútua, porque o resultado foi dessa conversa telefónica foi a gravação de setenta e quatro minutos (em CD) de 1993 em que Waits acrescenta a voz à do ilustre desconhecido. O resultado ganha outro ênfase, ou pelo menos alguma cor, ora Waits não fosse uma personificação do melancólico vagabundo, embora tal não se possa dizer em relação à intenção do minimalismo repetitivo: a certeza de que a voz não muda nunca, os mesmos compassos até à eternidade da meditação pura.
A profundidade do tema ganha outras dimensões, comparáveis às experimentações de Satie e de Cage, em abril de 2019 numa performance de doze horas (pela noite dentro) na Tate Modern. Além disso, prolonga-se igualmente na verdadeira espiritualidade da composição, mais focada na realidade do sem-abrigo do que na religiosidade das melodias de missa, ao ter como participantes dois grupos, um vocal e outro instrumental, de sem-abrigo.
Bryars diz que 'reinventa a peça sempre que a toca' e de, certa forma, como já mencionado anteriormente, ele adapta-a às possibilidades do registo. Isso é evidente nas várias durações que a obra assumiu ao longo do tempo: a primeira versão, a original, tinha cerca de 30 minutos, exatamente a duração máxima de uma gravação em fita magnética de bobines; posteriormente, foi encurtada para 25 minutos para se ajustar a um lado de vinil; e ainda antes da versão com Tom Waits, que possui 74 minutos em CD, houve uma versão de 60 minutos em cassete. Essa variedade de durações destaca a natureza repetitiva da composição de Bryars, uma espécie de espiritualidade sonora que busca a imortalidade, um ato contínuo, um fio sonoro que permeia o éter e que pode ser escutado sempre que sintonizamos a frequência certa. A obra de Bryars reside principalmente nessa transcendência musical - uma repetição zen que nunca se torna entediante. Bryars estima ter ouvido o loop um milhão de vezes e nunca se cansou dele. Sobre a versão de 12 horas na Tate Modern disse que 'não tem noção alguma de ter ficado entediado', embora inicialmente tenha pensado que não conseguiria aguentar. No entanto, três semanas depois, quando voltou a tocar a peça, percebeu: 'assim que a voz começa, eu ainda tenho aquela sensação de arrepio’.
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