Os primeiros sons da noite aconteceram na parte traseira da sala. Ecka Mordecai e Rory Salter criaram em duo um movimento fluido de sons feitos por altifalantes ressonantes (daqueles que se encostam a objetos e os fazem vibrar para, aos poucos, desenharem um triângulo entre esses dois pontos de escuta e aquilo que foi acontecendo à frente do público. Há aqui o mesmo toque leve de violoncelo, sem marcas profundas, sem as previsibilidades do instrumento. Ecka Mordecai oscila entre o mistério e a vulnerabilidade sónica. Tanto pode mergulhar na negritude de um folk negro europeu, como ficar a navegar no limiar do audível, sem nunca ser frágil, explorando ambiências melancólicas e incursões profundas num mundo desconhecido. Noutra ocasião, girou discos e circulou a cantar por entre as pessoas, dentro e fora do espaço. Porém, nesta performance, foi um pouco mais minimal. Os conceitos de espacialidade continuam presentes, mas em duo concedeu espaço a Rory Salter. Ao princípio parecia ser apenas alguem a apreciar uma guitarra elétrica pendurada no teto. Inspecionou a instalação, reajustou o feedback desmaiado de um amplificador virado para dentro, e abriu o canal das vozes pré-gravadas. Depois, já com a guitarra em posição de arma, fumegou os traços de violoncelo com feedbacks desmaiados e uma paragem repentina para uma síncope de harmónicos espaçados. Aqui já Ecka Mordecai tinha deixado o violoncelo para reativar os sons de fundo, muito parecidos com os sons misteriosos gravados com hidrofones, em perfeita sintonia com as vibrações finais nas cordas de guitarra.
Não havia luzes no set de Banana, provavelmente o nome artístico mais fora da caixa que se poderia esperar de um duo de artistas sonoros australianos, Alexandra Spence e MP Hopkins. Foi aqui que todas as luzes se apagaram. Havia apenas a luz muito ténue de duas velas acesas, uma em cada uma das pequenas mesas dos dois artistas. Em cima de cada uma das mesas havia ainda uma parafernália de objetos, pequenos instrumentos musicais e aparelhos eletrónicos. Entrou-se assim numa quietude de noite tardia, cenário de quem acorda a meio da noite: vozes na distância, um drone de eletrodoméstico que se transforma em algo maior, ruídos que apenas se mostram no silêncio da insónia e na escuridão. É essencialmente uma experiência acusmática pela contemplação de olhos fechados da narrativa dos sons. Mas é também uma experiência doméstica e mundana na forma como essa mesma narrativa se desintelectualiza e se deixa fragmentar pela contemplação daquele efusivo estado entre o sonho e a realidade.
Banana - Some Kind of Telling
Ute Kanngiesser - Geader
Ecka Mordecai - Promise & Illusion

No comments:
Post a Comment