15.9.23

Infant Tree: Banana (Alexandra Spence & MP Hopkins) + Ecka Mordecai & Rory Salter (Duo) + Ute Kanngiesser

O nome da editora Infant Tree possui as sementes de uma constelação de artistas ligados à experimentação, arte sonora e música improvisada. Destaco Ecka Mordecai e Ute Kanngiesser. Ambas são violoncelistas e repetentes nas noites do Café Oto. Numa primeira vez, Ute Kanngiesser improvisou sonoridades para as palavras faladas de Zara Joan Miller com uma paisagem de slides de fotografias projetadas no fundo da sala. Os sons e as palavras serviam um imaginário enigmático, ao mesmo tempo que o trocar sonoro da máquina de slides marcava o ritmo dos poemas e das texturas de violoncelo. A voz feminina fica sempre bem em frases curtas entre longos silêncios, deixando com isso evaporar o sentimento profundo que é muitas vezes de pura meditação. Foi a hora pacífica na qual a personagem imaginada deambulava entre o agora e o amanhã, entre o lugar e a distância, entre a presença e a ausência. Não fora bem um concerto, foram poemas. E é sobretudo isto que acontece agora, mesmo sem a presença de Zara Joan Miller. Há uma nítida poesia na forma como Ute Kanngiesser cria dinâmicas, entre as cordas na mão esquerda e o arco na mão direita. Há aqui uma corporalidade imensa. Os sons são aqueles que apenas parecem existir na ausência, na sombra do feixe de luz desmaiado que acentua as formas e as cores de um instrumento: trabalho de arco no limiar dos harmónicos possíveis, intensidade nas texturas, variações subtis a resvalar na saturação acústica. 


Os primeiros sons da noite aconteceram na parte traseira da sala. Ecka Mordecai e Rory Salter criaram em duo um movimento fluido de sons feitos por altifalantes ressonantes (daqueles que se encostam a objetos e os fazem vibrar para, aos poucos, desenharem um triângulo entre esses dois pontos de escuta e aquilo que foi acontecendo à frente do público. Há aqui o mesmo toque leve de violoncelo, sem marcas profundas, sem as previsibilidades do instrumento. Ecka Mordecai oscila entre o mistério e a vulnerabilidade sónica. Tanto pode mergulhar na negritude de um folk negro europeu, como ficar a navegar no limiar do audível, sem nunca ser frágil, explorando ambiências melancólicas e incursões profundas num mundo desconhecido. Noutra ocasião, girou discos e circulou a cantar por entre as pessoas, dentro e fora do espaço. Porém, nesta performance, foi um pouco mais minimal. Os conceitos de espacialidade continuam presentes, mas em duo concedeu espaço a Rory Salter. Ao princípio parecia ser apenas alguem a apreciar uma guitarra elétrica pendurada no teto. Inspecionou a instalação, reajustou o feedback desmaiado de um amplificador virado para dentro, e abriu o canal das vozes pré-gravadas. Depois, já com a guitarra em posição de arma, fumegou os traços de violoncelo com feedbacks desmaiados e uma paragem repentina para uma síncope de harmónicos espaçados. Aqui já Ecka Mordecai tinha deixado o violoncelo para reativar os sons de fundo, muito parecidos com os sons misteriosos gravados com hidrofones, em perfeita sintonia com as vibrações finais nas cordas de guitarra.

Não havia luzes no set de Banana, provavelmente o nome artístico mais fora da caixa que se poderia esperar de um duo de artistas sonoros australianos, Alexandra Spence e MP Hopkins. Foi aqui que todas as luzes se apagaram. Havia apenas a luz muito ténue de duas velas acesas, uma em cada uma das pequenas mesas dos dois artistas. Em cima de cada uma das mesas havia ainda uma parafernália de objetos, pequenos instrumentos musicais e aparelhos eletrónicos. Entrou-se assim numa quietude de noite tardia, cenário de quem acorda a meio da noite: vozes na distância, um drone de eletrodoméstico que se transforma em algo maior, ruídos que apenas se mostram no silêncio da insónia e na escuridão. É essencialmente uma experiência acusmática pela contemplação de olhos fechados da narrativa dos sons. Mas é também uma experiência doméstica e mundana na forma como essa mesma narrativa se desintelectualiza e se deixa fragmentar pela contemplação daquele efusivo estado entre o sonho e a realidade. 

Sob-escuta:
Banana - Some Kind of Telling
Ute Kanngiesser - Geader
Ecka Mordecai - Promise & Illusion

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