4.9.23

Richard Youngs + Damon & Naomi: a vulnerabilidade dos outros


Vi pela primeira vez Richard Youngs em 2014, no Cafe Oto, na primeira parte de Eric Chenaux, e nos meus apontamentos guardo imagens de estranheza e ambiguidade artística. Confuso por não saber se ele sabia tocar ou não, se sabia cantar ou não, escrevi que era ‘um tipo que, dadas as limitações, se atira de cabeça a territórios cinzentos [aqui, penso eu, num sentido mais ambíguo do que sentimento depressivo] e a uma certa anormalidade’. Acrescento ainda que ‘por vezes parecia um show de stand-up comedy, e se não fosse o encore final, teria sido um daqueles concertos frustrados em que o artista cai na realidade e se apercebe que tudo o que anda a fazer é pura retórica’. Ao ver novamente Richard Youngs na mesma sala, nove anos depois do primeiro encontro, quando a memória apenas me ilumina a imagem de um tipo de cabelo comprido, no escuro, a cantar à capella e a bater com os pés no chão, agora sob a luz natural de um dia de sol, cabelo curto, concerto-matiné. 

Com as ideias diluídas pelo tempo, vejo-me obrigado a importantes, talvez interessantes reflexões: (1) Youngs não prepara nada, ele próprio é um improviso, um orador que se perde, com tiradas dignas de um número de stand-up comedy (registe-se a presença de Stewart Lee na sala) e (2) alguém que não tem complexos em tocar um instrumento que não domina. Se a primeira peça que apresentou, Tokyo Photograph, seguiu parâmetros preparados em que ele vai tocando acordes aleatórios no piano e cantando palavras também ao acaso com intervalos monocórdicos de kazoo (ouça-se o disco de Youngs lançado pela editora de Oren Ambarchi, Black Truffle, com o título CXXI, daí os tais 121 acordes menores tocados de forma aleatória), a segunda peça, uma canção folk ‘que não é folk’, foi um atropelo de notas no piano, e por cada uma delas a supressão de um ‘ai’, uma careta, e a respiração suspensa na audiência. (3) Mas a voz de Youngs é toda dele, conhece-a bem, cria melodias peculiares em Tokyo Photograph, canta com profundidade (por vezes lembra Robert Wyatt) e cai no absoluto da fragilidade na terceira peça (a mesma do tal encore à capella de 2014) na qual pede ao público para entoar com ele um ‘mmm’ meditativo enquanto ele canta em desafio à vulnerabilidade de palco. A peça chama-se Life on a Beam (ouça-se no disco The Naive Shaman de 2005) e foi com ela que veio a tal memória do tipo de cabelo mais comprido, no escuro, a bater com os pés no chão.


Não é por acaso que escrevo tanto sobre Richard Youngs e talvez menos do que deveria escrever sobre Damon & Naomi. É que apesar de ambos se admirarem mutuamente e tocarem músicas uns dos outros, eles estão em múltiplos aspectos nos antípodas da performance. Enquanto que Youngs voa de olhos fechados por instrumentos, palavras e experiências sonoras, o que faz dele um dos músicos mais prolíficos e imprevisíveis da free folk britânica (contam-se 174 álbuns na sua discografia oficial), Damon & Naomi assumem o legado glacial dos Galaxie 500 e uma sonoridade de veia acústica que apenas sobrevive na execução plena da canção e na escola de vozes da dream pop americana. Falta-lhes o mistério das caves fumarentas, a crueza da electricidade e a reverberação eterna das tendências 4AD de outros tempos, mas os elementos que os distinguem e nos quais eles foram eventualmente pioneiros (abro aqui um parêntesis para dizer que convém lembrar que as primeiras gravações enquanto duo remontam a 1991 e o On Fire dos Galaxie 500 é de 1989, alguns anos antes do fenómeno slowcore dos Low, Duster, Bedhead ou Codeine) - o baixo em melodias pouco graves, a simplicidade de acordes, a projeção da autenticidade em câmara lenta, o divino da canção de sons fantasmagóricos - continuam a ser prevalentes na construção da narrativa do duo. 

Ainda na narrativa, agora na perspectiva do alinhamento do concerto, cabe-me dizer que foi na maior subjectividade de um apreciador distante um texto dividido em três partes. A primeira parte foi um diálogo entre as canções do mais recente álbum A Sky Record e revisitações ao primeiro EP do duo, Pierre Étoile, entre conversas de chá com a audiência sobre a nostalgia dos lugares, as dificuldades dos músicos transportarem instrumentos musicais nas companhias de aviação de baixo custo, ou o programa Shipping Forecast da BBC 4. Foi esta a parte-mor, a essência. O resto foi a viagem no tempo condensada em duas canções, segunda e terceira partes, portanto: (segunda) Another Day do álbum On Fire dos Galaxie 500, como não poderia deixar de ser, e no encore (terceira) uma versão de Song to the Siren de Tim Buckley a lembrar, sem apegos, sem sequer ter de invocar This Mortal Coil, de onde vem muito do universo sonoro de Damon & Naomi.

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