2.9.23

75 Dollar Bill: entre a repetição e a ressonância cósmica




















Não é de todo errado dizer que a música dos 75 Dollar Bill é uma simples forma de blues. É, contudo, um exercício redutor e simplista, quando a luz mágica dos pormenores se acende numa guitarra elétrica, que poderia ser uma guitarra como outra qualquer mas não é. E o que chama a atenção nela, à primeira vista, nem é tanto um botão rotativo de volume a fazer lembrar aqueles dos fogões de cozinha antigos, mas sim a divisão da escala do braço da guitarra, aparentemente vinte e quatro trastes por oitava em vez dos habituais doze. Esta peculiar divisão na guitarra permite ao guitarrista, de seu nome Che Chen, de ascendência taiwanesa, tocar quartos de tom e explorar sonoridades bem distantes da consonância musical europeia. Isto aproxima-o da música modal muçulmana que teve origem na Península Ibérica da Idade Média e se expandiu um pouco por toda a África. Aliás, foi na Mauritânia que Chen teceu as primeiras experiências num período frutífero de duas semanas com o músico Jeïch Ould Chighaly, nome também ligado ao género tishoumaren de Amadjar dos Tinariwen. Porém, não foi neste registo modal que o duo 75 Dollar Bill deu início à segunda noite da residência de dois dias no Café Oto, em Dalston, Londres (sala séria candidata à melhor do planeta, segundo Chen).

A segunda noite começou com um drone amplificado pelos shawms (um instrumento de sopro de madeira com uma palheta dupla, semelhante ao oboé, mas com um tubo mais largo e cónico) do percussionista Rick Brown, chocalhos, flauta, e um curioso walkman a emitir ruído branco, criando uma paisagem sonora meditativa e uma densidade introspectiva. Há uma óbvia procura de concentração (também sónica) para a típica expansão do duo que tem como barca a estranha guitarra de Chen e como âncora a caixa de madeira de Brown. O percussionista, veterano da cena da downtown nova iorquina, ilude o ouvinte com uma simplificação de batida próxima do minimalismo (aqui a repetição é elemento charneira nos 75 Dollar Bill), algures entre os poli-ritmos de Moondog e as figuras geométricas dos Neu!, para criar uma textura de contraponto com as teias viscerais da guitarra de Chen. Há aqui um encontro.

À exploração modal de guitarra de vibrações africanas e indianas alia-se o drone pontuado por um ritmo. Esta simbiose faz com que a música dos 75 Dollar Bill se mantenha sempre em movimento contínuo, criando outros espaços quer para o improviso de frases repetidas até ao transe, quer para múltiplas variações de texturas ressonantes, algures entre feedback que se expande para o drone e as frequências avolumadas das afinações abertas de guitarra. Nota-se que Chen tem algum controlo nisto, mas não muito, até porque tal nunca seria o desejado numa música que se quer sempre em expansão. Daí também a breve referência de Brown a Neil Young parafraseando o canadiano, ‘we’re trying to do our best’, com óbvia cintilação no ‘trying’.

Depois de três, talvez quatro, longas peças com um curto intervalo pelo meio (as peças são o suficiente longas para que o intervalo pareça curto), o remate cósmico da noite entra numa espiral lenta com mais alguns drones à mistura, e conchas, que tanto poderiam ter saído de Interstellar Space de Coltrane como dos sonhos mais misteriosos de Hendrix. É a lentidão de um batimento cardíaco. A combustão das palavras e das infinitas linguagens de uma guitarra elétrica ruidosa a desintegrar-se aos poucos. E com ela o pó das estrelas da primeira noite completa de setembro. Até ao infinito.

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