A segunda noite começou com um drone amplificado pelos shawms (um instrumento de sopro de madeira com uma palheta dupla, semelhante ao oboé, mas com um tubo mais largo e cónico) do percussionista Rick Brown, chocalhos, flauta, e um curioso walkman a emitir ruído branco, criando uma paisagem sonora meditativa e uma densidade introspectiva. Há uma óbvia procura de concentração (também sónica) para a típica expansão do duo que tem como barca a estranha guitarra de Chen e como âncora a caixa de madeira de Brown. O percussionista, veterano da cena da downtown nova iorquina, ilude o ouvinte com uma simplificação de batida próxima do minimalismo (aqui a repetição é elemento charneira nos 75 Dollar Bill), algures entre os poli-ritmos de Moondog e as figuras geométricas dos Neu!, para criar uma textura de contraponto com as teias viscerais da guitarra de Chen. Há aqui um encontro.
À exploração modal de guitarra de vibrações africanas e indianas alia-se o drone pontuado por um ritmo. Esta simbiose faz com que a música dos 75 Dollar Bill se mantenha sempre em movimento contínuo, criando outros espaços quer para o improviso de frases repetidas até ao transe, quer para múltiplas variações de texturas ressonantes, algures entre feedback que se expande para o drone e as frequências avolumadas das afinações abertas de guitarra. Nota-se que Chen tem algum controlo nisto, mas não muito, até porque tal nunca seria o desejado numa música que se quer sempre em expansão. Daí também a breve referência de Brown a Neil Young parafraseando o canadiano, ‘we’re trying to do our best’, com óbvia cintilação no ‘trying’.
Depois de três, talvez quatro, longas peças com um curto intervalo pelo meio (as peças são o suficiente longas para que o intervalo pareça curto), o remate cósmico da noite entra numa espiral lenta com mais alguns drones à mistura, e conchas, que tanto poderiam ter saído de Interstellar Space de Coltrane como dos sonhos mais misteriosos de Hendrix. É a lentidão de um batimento cardíaco. A combustão das palavras e das infinitas linguagens de uma guitarra elétrica ruidosa a desintegrar-se aos poucos. E com ela o pó das estrelas da primeira noite completa de setembro. Até ao infinito.
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