Agora, a solo, ao apresentar a linguagem funk manipulada de The Leisure Principle (Black Truffle, 2023), deixa um travo de puro virtuosismo inconsequente, sem silêncios, sem uma ponta de estética que se possa dizer ser de bom gosto. Ocorre-me a ideia de música do genérico do Seinfeld sem fim, em teias infinitas, malhas, solo constante, sem espaços, sem respiração. Jaco Pastorius, Joe Satriani do baixo, Flea a fazer exercícios de aquecimento. Passe a minha pouca apetência para o funk, não me convence.

E para iluminar um pouco estas ideias, e para o azar do rapaz, bastou a presença na mesma sala de Melvin Gibbs que veio acompanhar de forma elegante os devaneios sónicos de Arto Lindsay. “Hammer and bammer!”, riu-se Gibbs, acrescentado para rematar um concerto sublime “this is a much better song”. E foi. Uma canção. Apesar de todo o ruído, estranheza, devaneio, foi a melhor canção da noite. E também é estranho estar a falar de canções para descrever um concerto de Arto Lindsay.
Mas verdade seja dita que, apesar de todos os espaços de improviso, da guitarra de eletricidade descontrolada, estamos sobretudo a falar de canções simples. São elas que articulam as composições avant-garde do artista e a grande emoção de uma música por vezes austera. É uma justaposição de conceitos aparentemente dicotómicos, mas é aí que reside a maior arte de Arto Lindsay. Não parece haver mais ninguém a fazer uma música com uma dinâmica absoluta entre a canção mais pura e a arte de fazer ruído com uma guitarra elétrica.
A voz é quase sempre uma melodia de cânticos anglo-brasileiros (Arto alternou entre o inglês e o português), mas a guitarra é pura dissonância, ruído abrupto, matreiro e imprevisível. Mais do que melodia, existe nela a suavidade profunda da música brasileira, a voz plácida, a filosofia calma de João Gilberto, com um sorriso. Mais do que dissonância, a guitarra é uma presença quase alienígena, nem sempre chamada à narrativa; mas que quando aparece é uma presença desarmante, poderosa, sem pedir licença. Não há acordes, não há solo, não há nada que satisfaça os cânones do instrumento - é pura e simplesmente a guitarra do não-guitarrista, daquele que não sabe e não quer saber.
Mas também não se faz o improviso do heliocêntrico patamar do ‘olhem para mim’, tudo sai com a naturalidade mais moribunda, de quem não gosta de quem “chora de papo cheio”. Melvin Gibbs foi o companheiro perfeito, o músico presente, a chamar-nos para orquestrações imaginárias, com silêncios, espaços, dinâmica, nuances de quem já anda no palco há imenso tempo. Nisto, sobretudo nisto, foi uma lição para o Otto Willberg. Estávamos perante dois músicos de outro calibre. Ou melhor, um músico e um não músico, numa combinação mais do que perfeita daquilo que pode ser o improviso, o experimentalismo, a canção, tudo em combustão, tudo tão intelectual e tão solto ao mesmo tempo. O Arto Lindsay só pode ser um génio.

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