17.11.22

A tecnologia do loop: Música ambiente - o tempo elástico para a paisagem sonora

Steve Reich teve uma grande influência no trabalho musical de Brian Eno, considerado o pioneiro da música ambiente. Eno tinha algum tipo de fascínio por gravadores e música minimalista, e toda a sua música ambiente é baseada na ideia de que é possível pensar num sistema ou conjunto de regras em movimento para criar música. Seguindo essa ideia, Eno refere que à medida que “nos afastamos da ideia do compositor como alguém que cria uma imagem completa e depois se afasta dela, há uma forma diferente de compor. (…) Colocar algo em movimento e deixá-lo fazer a coisa por si, é uma coisa completamente nova”. Uma das primeiras peças que compôs seguindo essa nova regra foi Music For Airports (1978). A sua estrutura é muito simples. Há notas cantadas por três vozes femininas e por ele mesmo. Uma das notas repete-se a cada 23 1/2 segundos. Na verdade, é um longo loop a percorrer uma série de cadeiras tubulares de alumínio (…) e o próximo loop, mais baixo, repete-se a cada 25 7/8 segundos. O terceiro a cada 29 15/16 segundos. (…) todos eles se repetem em ciclos incomensuráveis - e que provavelmente nunca se voltarão a sincronizar novamente. A peça é um movimento no tempo. Os elementos básicos nunca mudam, mas a composição apresenta bastante variedade.

As experiências de Eno com fita começaram em 1972, quando ele descobriu o Acumulador de Atraso de Riley. Convidou o guitarrista Robert Fripp para as sessões de estúdio e, sem ensaiar ou estudar a máquina, o resultado foi o clássico tape delay de gravação denominado The Heavenly Music Corporation de No Pussyfooting Around (1973). A partir daqui, ambos os músicos descobriram novas perspetivas de composição. Fripp continuou a usar a técnica de delay/feedback de fita em trabalhos com Peter Gabriel e Daryl Hall, assim como no seu disco a solo Exposure (1978). Em 1979, começou a dar concertos solo para guitarra e delay de fita, uma configuração que ele chamou Frippertronics (obviamente um novo nome para o Acumulador de Atraso original de Riley): aquela experiência musical que resulta da intersecção de Robert Fripp e com um pequeno e apropriado nível de tecnologia que é a Les Paul, a pedaleira Fripp de pedais fuzz, wah-wah e volume, e duas Revox. As gravações Let the Power Fall (1981) e God Save the Queen (1981) foram LPs de Frippertronics. Para Fripp, a Frippertronics foi uma forma poderosa de se abrir para a música e explorar novos territórios musicais. 






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No início dos anos 1990, Fripp redescobriu a técnica durante a sua busca constante de novas formas de expressão musical. A seguinte encarnação da Frippertronics foi denominada Soundscapes e empregou uma gama crescente de máquinas digitais sofisticadas, tais como dispositivos de loop digital TC2290 e harmonizadores. O uso de looping tornou-se mais complexo na mecânica e no resultado com a substituição das duas máquinas Revox por um par de delays digitais T.C. Electronics. Mais tarde, Fripp adicionou outros equipamentos de looping à sua configuração, incluindo o Oberheim Echoplex Digital Pro. Este sistema mais complexo esteve na origem da totalidade das músicas dos álbuns 1999, A Blessing Of Tears, Radiophonics e The Gates Of Paradise


Eno usou a técnica de delay de fita em Discreet Music (1975), uma obra-prima da música ambiente generativa, com padrões melódicos lentos e longos, e paisagens em loop; e numa segunda colaboração com Fripp, Evening Star (1975). Para Eno, o Acumulador de Atraso era perfeito, não fosse a limitação de duração de um LP. Ele queria criar peças infinitas e não apenas uma gravação dos resultados do processo generativo. No fundo, queria criar a sua própria máquina generativa. O trabalho ambiente posterior de Eno voltou a usar sistemas de loops fechados de fita, por exemplo, em Ambient Music 1: Music for Airports (1978) e na suas video-instalações; e mais tarde usou o Koan Software criado por Tim Cole para perseguir o desejo de gerar música “teoricamente sem começo nem fim”. O Interactive Koan Music Control Plugin (IKMC) permitiu a Eno a possibilidade de criar peças de música generativa de forma dinâmica, em tempo real e conforme as ações do utilizador. O resultado foi Generative Music 1 e uma possibilidade de loops infinitos para um espaço infinitamente impossível.


O conceito de looping parece triunfar na sua própria duração e a música generativa tornou-se um enigma para o futuro e um enigma na existência humana. No dia 1 de janeiro de 2000 foi inaugurado o projeto Longplayer de Jem Finer  que vai gerar uma peça com a duração de mil anos. Isso significa que pode ir além da existência de vida humana no planeta... será que o planeta Terra continuará a ser habitado por humanos até o final da música em 31 de dezembro de 2999? Ninguém tem certeza. Está a ser reproduzido desde o início de 2000 no farol em Trinity Buoy Wharf, em Londres, e também pode ser ouvido na Bibliotheca Alexandria, no Egito, e globalmente via transmissão na Internet. 


A repetição é separada da ideia de looping em tempo real numa plataforma desenvolvida por James McCartney: o SuperCollider. Este sistema permite fazer loops de pequenos segmentos de música e mover gradualmente o ponto inicial do loop. Com cada novo loop aplicando o mesmo processo a si mesmo para criar um nicho de loops, todos a trabalhar com os diferentes limites do seu loop original para criar uma evolução constante. O som foi criado por um computador tocando 6 loops de uma composição pré-gravada de 20′ 20″ para taças tibetanas e é o mesmo princípio de ter seis cópias do mesmo disco a tocar em seis gira-discos diferentes, cada um a girar numa velocidade diferente. É curioso: para explicar a "partitura" que cria esse loop de 1000 anos de música é útil usar a analogia do disco. Surpreendentemente, essa ideia extremamente futurista é totalmente baseada nos movimentos cíclicos de uma tecnologia musical considerada pré-histórica: o gramofone.

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