4.11.22

A tecnologia do loop: As primeiras experiências - o gramofone

 'O loop é a fundação da nossa experiência de tempo, e por conseguinte, de qualquer forma de arte baseada no tempo' - Brian Evans in 'Loop Theory'

Desde a invenção do cilindro de cera por Thomas Edison em 1887, com um propósito não musical, que se tenta entender o fundamental papel do gramofone na arte da música e, por conseguinte, o debate estético sobre o contributo da tecnologia para a música continua aceso. A tecnologia evidencia a cultura musical que a explora e a evolução da máquina é tanto o reflexo das nossas necessidades como dos nossos medos. John Philip Sousa receava que o fonógrafo pudesse acabar com a música ao vivo. Não estava de todo errado... o aparecimento desta nova tecnologia teve o seu impacto nos hábitos do consumidor, mas, ao longo dos anos, acabamos também por assistir à incorporação do gramofone na performance e a um contributo único para o aparecimento e desenvolvimento de determinados estilos de música. Desde as primeiras experiências de John Cage até à cultura DJ que fizeram do vinil objeto essencial de manipulação, mesmo quando este estava nos meandros do obsoleto. DJs como Kool Herc, Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash usaram o gira-discos como um instrumento essencial para criar uma amálgama de efeitos analógicos - loops, breaks, beats, scratches. Refira-se ainda o Grammophonemusik, um movimento de curta-duração na Alemanha dos anos 1920 e inícios de 1930 (Paul Hindemith, Kurt Weill, Ernst Toch, e Stefan Wolpe), pioneiro no uso do vinil para lá de um objeto de preservação e distribuição, inovador na utilização do gramofone como instrumento de efeitos na criação musical. Importante também referir o futurista Marinetti e Kurt Schwitters. Ambos foram pioneiros da manipulação sonora e usaram tecnologia revolucionária antes do seu uso se tornar prática comum. Nos anos 1930, Marinetti compôs cinco peças para rádio que antecipou a invenção da música concreta. A manipulação sonora envolvia sobreposição de diferentes sons de água, fogo e vozes humanas, autênticas proto-formas de repetição mecânica.


Alguns anos mais tarde, no período pós-guerra nos anos 1940, Pierre Schaeffer começou a usar novas tecnologias na Radiodiffusion Télévision Française (RTF), onde trabalhava como engenheiro e locutor de rádio. Na RTF, Schaeffer tinha à sua disposição equipamento diverso, aparelhos fonográficos, equipamento de gravação e de impressão de vinil. Estudou o mecanismo de ‘ranhura fechada' (locked groove ou sillon fermè) e descobriu que em vez de correr a agulha em espiral até ao centro do disco, podia deixá-la ficar na ranhura, criando assim um loop. Em outubro de 1948, o primeiro 'concerto de ruídos' (concert des bruites) foi transmitido na radiofonia francesa. Etude Aux Chemins de Fer (Estudo de Caminhos-de-ferro) é considerada a primeira composição de música concreta e consiste numa colagem de gravações de locomotivas a vapor, assobios e outros sons típicos de comboios e estações ferroviárias. Recorrendo a uma máquina de imprimir vinil, quatro gira-discos, uma mesa de mistura de quatro canais, filtros, uma câmara de eco, e uma máquina gravadora portátil, Schaeffer explorou técnicas completamente revolucionárias para a altura: variação de velocidades de gravação e reprodução, sampling e edição com a manipulação da captação da agulha, bloqueio de ranhuras gravadas, modulação de volumes, reprodução em reverso e fade-in e fade-out.  O gramofone deixara de ser uma simples ferramenta de reprodução de discos, para ser também uma ferramenta de composição e manipulação sonora.


Ao ouvir atentamente a colagem sonora de Schaeffer, 'Étude Aux Chemins de Fer', dá para perceber facilmente, através de uma simples análise dos diferentes ritmos e sons, o recurso às técnicas já mencionadas. Os loops são curtos em repetição, mas são a base substancial de uma composição inovadora. Na altura, Schaeffer apelidou esses loops de “sillon fermè” e descreveu o processo de composição da seguinte forma:


“Teríamos cerca de sete ou oito gira-discos a tocar em simultâneo, mas apenas um som a tocar em cada um deles. Depois experimentávamos diferentes variações, montagens como, por exemplo, o som A repetido duas vezes, depois um som B, depois um C e por aí fora. Era semelhante a um ensaio de orquestra em que se experimentavam diferentes temas, diferentes variações.”


As previsões do visionário László Moholy-Nagy estavam corretas. Em 1923 exemplificara o uso experimental da tecnologia moderna em Novas Formas Musicais: Potencialidades do Fonógrafo ao sugerir que o fonógrafo, um instrumento de reprodução, se transformaria num instrumento de produção através da criação de fenómenos sonoros no próprio disco com a 'incisão de linhas de script-groove consoante necessário'. Acrescentava ainda que 'os grooves são marcados por ação humana numa placa de cera, sem qualquer meio mecânico externo, produzindo efeitos sonoros, dando significado a novos instrumentos, sem orquestra - uma inovação fundamental na produção sonora (...) tanto na composição como na performance musical". 


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