8.9.22

Poor Mrs. Mills…



Por momentos fiquei a pensar nisto: e se o John Lennon entra aqui agora mesmo com um ‘good night’ rouco, casaco ao ombro, Epiphone Casino na caixa, ou se ele sai dali daquela câmara de ecos, depois de mais uma sessão de vozes distorcidas de ‘Lucy in the Sky…’? E porque vejo um Harrison de vinte e poucos anos junto às escadas do estúdio 2 à espera do sinal para gravar mais um take? Ou porque é que aquela sombra ali por detrás da vidraça da sala de controlo me parece o Barrett carismático depois de um take irrepetível de Interstellar Overdrive? Porque é que vejo mortos, quando a acontecer algum fenómeno numa noite de chuva em Londres de setembro, ainda que de probabilidade ínfima, seria ver o bem vivo McCartney a sacudir a gabardina e a sentar-se ao piano honky-tonk para matar saudades da Lady Madonna? 
O estúdio 3 é a Day in the Life, o estúdio 2 é a I Am the Walrus e os corredores são os metros de fita magnética usados nos loops de Tomorrow Never Knows. E estes microfones Neumann são os mesmos. Estas caixas DI, enormes, antigas, são exatamente as mesmas. E este piano, sim este piano que quase (sim quase) não me atrevo a tocar nas teclas é mesmo o Steinway Vertegrand piano de Lady Madonna, mais conhecido por ‘Mrs Mills de Abbey Road’ porque, de facto, era tocado por uma pianista chamada Mrs Mills (Gladys Mills). Foi comprado em 1905 por 404 libras (o equivalente a cerca de 12.000 libras nos dias de hoje) e parece estar algures num purgatório de pianos que não querem ir para um museu nem para lado nenhum (a não ser que se entenda Abbey Road como um museu). Fico a saber que foi intencionalmente modificado por um técnico Steinway a pedido da velha guarda engenharia de Abbey Road para ter um som velho, antigo, honky-tonk, e está propositadamente desafinado e para ali encostado num canto. Poor Mrs. Mills… 
Tudo é antigo. Tudo parece estar parado no tempo. É como abrir um livro sobre a história da música e a primeira coisa que nos bate não são as palavras, as imagens ou as estórias. Antes as sensações, o cheiro de papel antigo, as cores esverdeadas e acastanhadas da capa, o papel amarelecido e rugoso, as manchas de café, os apontamentos à mão e frases sublinhadas. Até o cheiro no ar é antigo, de outro tempo. Nele ficaram as conversas, os sons, a música, o fumo. Tudo isto junto num marulho de sensações que apenas existem naquele espaço.

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