Episódio-piloto. O crime revela-se segundos depois de uma imagem sonora - ‘uma solitária sirene de nevoeiro sopra’ - nas palavras de Pete Martell quando caminha, solitário, junto ao rio num dia cinzento. Avista, ao longe, algo suspeito que acaba por se revelar ser o corpo de Laura Palmer embrulhado em plástico. Ouvem-se sinos e o sempre presente toque contínuo da sirene de nevoeiro. Um toque suave, baixo, que possui a particularidade de alcançar grandes distâncias. São sons que carregam um certo simbolismo arquétipo: ‘sinais de comunidade’, neste caso de uma pequena comunidade chamada Twin Peaks A música de fundo intitula-se Laura Palmer’s Theme, um tema composto por Angelo Badalamenti para ilustrar o sentimento de antecipação trágica de Laura Palmer. O toque suave distante da sirene de nevoeiro pode aqui ser amplamente entendido, quer como um som-objecto puro e elemento monocórdico de design sonoro, quer como um ponto de partida para a textura da banda-sonora. Na verdade, são óbvias as semelhanças entre o som-objecto puro da sirene de nevoeiro e o som sintetizado das partes melódicas (a voz instrumental) do tema do genérico, ‘The Twin Peaks’ Theme’. Aqui a melodia vocal original de Julee Cruise é protagonizada por um som de sintetizador que, em termos de cor e qualidade de som, não é muito diferente do tom da sirene de nevoeiro, criando assim uma certa sublimação sonora, quer entre o diegético e o não-diegético, quer entre o design sonoro do filme e a banda-sonora.
É, assim, neste lento aproximar a Twin Peaks, que somos levados a descobrir, pela primeira vez, uma arquitectura sónica distinta: o design sonoro imaginativo de Lynch (a insistência em mecanismos e repetições) em justaposição com o minimalismo feito por sintetizadores da música para filmes de Badalamenti, produzindo aquilo que Rockwell descreve como ‘fragmentos de forte emotividade em obsessiva rotação na mente’. Intencionalmente ou não, parecem ser as características próprias daquela sirene que ajudam a construir a ponte entre os elementos que compõem aquilo que podemos designar de ‘paisagem sonora tríptica’ de Twin Peaks – design sonoro, dream pop e música minimalista – e que dá substância ao estatuto romântico de Lynch de ser capaz de, segundo Chion, ‘estruturar o todo através de contrastes e antíteses’. É naquele discreto elemento sonoro que reside o núcleo central de cruzamento de elementos aparentemente díspares. Ele é a imagem invisível da mise en scène (objecto sonoro), a fonte de textura musical (som sintetizado) e o som suave que alcança grandes distâncias (ideia que parece habitar o conceito de dream pop onde vozes femininas, apesar da sua aparente fragilidade, conseguem destacar-se num manancial sonoro intenso e profundo).
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