Após ‘Twin Peaks: Fire Walk With Me’, o filme derradeiro de 1992 que veio preencher uma série de lacunas na misteriosa vida e morte de Laura Palmer, pouco ou nada se pode esperar de um enredo já feito e solidificado no imaginário colectivo. A história foi já na altura devidamente ampliada, e explorada ao máximo, para prender audiências ao ecrã e sedimentar um culto televisivo ímpar. No entanto, um ressurgimento de uma série de tempos idos, pode não ser o melhor acontecimento televisivo num mundo agora tão mudado e tão longe daquele pequeno universo feito de personagens complexas e enigmáticas, que exigem uma vivência próxima do telespectador. Mas Twin Peaks parece ser muito mais do que isso. Os seus tentáculos estendem-se a inúmeras plataformas artísticas e movimentam-se nos meandros de um última geração analógica, pré-internet e pré-redes-sociais, onde todo o passo lento continua a ser uma fonte de energia criativa. Muito mais do que isso, Twin Peaks é uma criação de um dos realizadores mais aclamados das últimas décadas, uma espécie de guru da película mais abstracta e do protótipo da banda-sonora de autor a cruzar-se com o próprio design sonoro do filme. Daí não ser de admirar todas estas movimentações no mundo subterrâneo que, em 2014, apontavam como certo um regresso iminente.
Assim sendo, é de supor que ‘Twin Peaks: Fire Walk With Me’ não tenha sido o carimbo definitivo de David Lynch no caso de Laura Palmer. Mesmo tendo o assassino já sido revelado, o mistério se ter dissipado, parece existir ainda algo mais para David Lynch. Existe sempre uma fórmula para reabrir um caso arquivado - novos elementos de prova, fantasmas e testemunhos que reaparecem - e uma infinita possibilidade de esmiuçar ainda mais a história para uma arrumação implacável da série nas estantes do seu tempo. É que Twin Peaks nunca se viu totalmente entregue ao pó e à desintegração própria dos tempos pós-modernos. Tal nunca foi o caso. O fantasma de Laura Palmer continuou, e continua, a pairar e assombrar gerações que fizeram aquelas audiências televisivas e outras vindouras pouco dadas à repetição de fórmulas de puro entretenimento. Na verdade, seria espectável um certo revivalismo. Por um lado, porque Twin Peaks adquiriu muito rapidamente um estatuto de culto, quer pela sua especificidade narrativa, repleta de momentos misteriosos e abstractos, quer por uma música que se tornou na banda-sonora de uma geração; por outro lado, porque David Lynch desenvolveu uma carreira de autor contínua na exploração profunda de estranha e misteriosa temática nos seus filmes, que convida seguidores e, provavelmente, alguns fanáticos. Contudo, a chama-viva de Twin Peaks não se basta nisso. A banda sonora de Angelo Badalamenti, mais do que objecto de permanente e contínuo revivalismo, tem sido 'reciclada' por músicos que se enquadram numa vertente claramente exploratória, que mistura tendências avant-garde e pop, e que, nalguns casos, tem revolucionado novos conceitos e novos géneros e sub-géneros musicais. O espólio do ‘sumo pop sonhador’ – uma mistura de baladas dos anos 50 com o estilo 80s da 4AD – que Lynch conseguiu abstrair através da mecânica do filme para ilustrar um imaginário surrealista e mundano, tem sido re-absorvido por músicos que apontam o visual sonoro de Twin Peaks como uma forte influência, a par de tantas outras puramente musicais.
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