14.4.16

2016: Krake

Um dos momentos mais interessantes de uma banda-sonora para filme mudo que eu vi, aconteceu quando, numa cena de dança e festa do clássico Sunrise de 1927, os músicos começaram a tocar uma música techno. O resultado foi surpreendente. Um delírio pastilhado. Uma assincronia brusca. Uma rave de carrinho-de-choque a entrar pelo tela dentro. Uma justaposição soberba a trocar-nos as voltas: preto-e-branco mudo com uma sonorização colorida (de certeza que M. Chion tem uma palavra única para descrever este truque).
Este vídeo não possui exactamente aquele contraste entre o velho e o novo, ou o mudo e o que é de agora, mas proporciona aquela estranheza de se estar a ver uma sonorização para um bailado esquisito, retirado do contexto e obscurecido por uma música que, à partida, não tem nada a ver com a performance manipulada. Mas, no fundo, tem muito. Porque quando se justapõem estas coisas tão díspares cria-se uma terceira dimensão: uma zona de intersecção entre um vídeo que já não é kitsch, mas é sombrio; e uma música que sai da gruta experimental para uma arena de circo. Mas isto não é humor e negritude em paradoxo. É algo ambíguo. Algo demasiado fundido. Algo que só pode fazer parte do domínio do artístico.

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