25.2.16

1997: The Ballasted Orchestra

1997. No mesmo ano em que a música alternativa assume contornos mais expansivos com o art rock de OK Computer, o trip hop de Portishead, o chamber pop de Curtains e a ternura intimista de The Boatman’s Call, um duo de Austin, no Texas, pioneiro da arte do drone com guitarras que não soam a guitarras, lança o obscuro The Ballasted Orchestra no qual foram gravadas as faixas Music for Twin Peaks Episode #30, Part I e Music for Twin Peaks Episode #30, Part II. Do título depreende-se a intenção de dar uma espécie de continuidade a Twin Peaks que havia terminado precisamente no episódio #29. O duo de Adam Wiltzie e Brian McBride faz, assim, jus ao próprio nome da banda, Stars Of The Lid (espaço personalizado cinemático entre o olho e a pálpebra) ao propor uma banda-sonora para um episódio imaginário.
O título soa perfeito, quer porque o episódio 29 foi o último que contou com a participação de David Lynch, quer porque o episódio 30 nunca existiu e, por isso, estamos perante uma composição para um filme/episódio no vazio. Porém, o desafio de compor a arquitectura sónica para uma das séries mais enigmáticas do universo televisivo revela-se um processo tão aliciante quanto abstracto. Na sua essência, é um trabalho meticuloso que passa muito por uma desconstrução de elementos fílmicos e por uma elevação do design sonoro ao estatuto de composição. No plano contextual do episódio prévio, é uma alusão próxima do cenário em camera lenta (e muitas vezes do avesso) das cenas no misterioso Black Lodge, lugar irreal onde existem cores rubras, anões em danças esquisitas e frases faladas ao contrário. Os Stars Of The Lid não escondem a admiração pela série: a banda-sonora de Angelo Badalamenti em particular, a importância dessa mesma banda-sonora no contexto fílmico, o prazer do café (talvez o antídoto para a sonolência dos drones de guitarra preparada), o permanente júbilo das coisas mundanas por parte do agente Cooper e, essencialmente, o facto de um drama tão estranho e diferente ter tido o privilégio de horário nobre num canal mainstream. Esta infiltração do alternativo no mundano teve ecos na componente musical da obra e aquele cruzamento perfeito de minimalismo, dream pop e design sonoro, obteve espaços e conquistou uma audiência do futuro.

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