1997. No mesmo ano em que a música alternativa assume contornos mais expansivos com o art rock de OK Computer, o trip hop de Portishead, o chamber pop de Curtains e a ternura intimista de The Boatman’s Call, um duo de Austin, no Texas, pioneiro da arte do drone com guitarras que não soam a guitarras, lança o obscuro The Ballasted Orchestra no qual foram gravadas as faixas Music for Twin Peaks Episode #30, Part I e Music for Twin Peaks Episode #30, Part II. Do título depreende-se a intenção de dar uma espécie de continuidade a Twin Peaks que havia terminado precisamente no episódio #29. O duo de Adam Wiltzie e Brian McBride faz, assim, jus ao próprio nome da banda, Stars Of The Lid (espaço personalizado cinemático entre o olho e a pálpebra) ao propor uma banda-sonora para um episódio imaginário.
O título soa perfeito, quer porque o episódio 29 foi o último que contou com a participação de David Lynch, quer porque o episódio 30 nunca existiu e, por isso, estamos perante uma composição para um filme/episódio no vazio. Porém, o desafio de compor a arquitectura sónica para uma das séries mais enigmáticas do universo televisivo revela-se um processo tão aliciante quanto abstracto. Na sua essência, é um trabalho meticuloso que passa muito por uma desconstrução de elementos fílmicos e por uma elevação do design sonoro ao estatuto de composição. No plano contextual do episódio prévio, é uma alusão próxima do cenário em camera lenta (e muitas vezes do avesso) das cenas no misterioso Black Lodge, lugar irreal onde existem cores rubras, anões em danças esquisitas e frases faladas ao contrário. Os Stars Of The Lid não escondem a admiração pela série: a banda-sonora de Angelo Badalamenti em particular, a importância dessa mesma banda-sonora no contexto fílmico, o prazer do café (talvez o antídoto para a sonolência dos drones de guitarra preparada), o permanente júbilo das coisas mundanas por parte do agente Cooper e, essencialmente, o facto de um drama tão estranho e diferente ter tido o privilégio de horário nobre num canal mainstream. Esta infiltração do alternativo no mundano teve ecos na componente musical da obra e aquele cruzamento perfeito de minimalismo, dream pop e design sonoro, obteve espaços e conquistou uma audiência do futuro.
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
Labels
108 meditations
1978
1989
1994
75 dollar bill
90s
abbey road
alexandra spence
ambiente
angelo badalamenti
angharad davies
banana
barcelos
brian eno
bridget st john
cafe oto
chris rainer
damon & naomi
david grubbs
david lynch
deep listening
digital
directions
drone
ecka mordecai
editions eg
emma tricca
ensaios
eraserhead
erik satie
eyes of the amaryllis
fita magnética
folk
fonógrafo
fred frith
gavin bryars
gibrana cervantes
gigs
gramofone
harry partch
improv
industrial symphony
infant tree
jan st werner
julee cruise
jules reidy
krake
lankum
laura agnusdei
lisbon story
longplayer
looping
luciano maggiore
lucy railton
madredeus
meditations
michael gira
michiko ogawa
mike cooper
modern nature
mosquito farm
mp hopkins
música concreta
new albion
panaiotis
pat thomas
pauline oliveros
pierre schaeffer
pullman
rafael anton irisarri
ratere
richard youngs
robert fripp
rory salter
rump state
shane macgowan
stars of the lid
steve reich
stuart dempster
suono grasso
susana santos silva
swans
taku sugimoto
tecnologia
tellkujira
terry riley
the beatles
the pogues
tim hill
tom waits
tortoise
twin peaks
ute kanngiesser
valentina magaletti
william basinski
wim wenders
No comments:
Post a Comment