29.10.23

Rump State + Mosquito Farm

Ver Mosquito Farm e Rump State na mesma noite ilumina ideias: a primeira, a residir na veia exploratória de duos que combinam o experimentalismo industrial com a manipulação eletrónica; a segunda, a assinalar a identidade de géneros e como as sensibilidades se distanciam e aproximam numa dinâmica oscilante.

Os Rump State abriram alas a considerações sobre a dinâmica influente de uns Suicide ou, de certa forma, à contextualização de um punk eletrónico dissonante à luz da música industrial dos anos 1980. Invoquemos então, além dos Suicide, as influências dos Throbbing Gristle e dos dois duos descendentes, Coil e Chris & Cosey, assim como dos germânicos Deutsch Amerikanische Freundschaft (eis mais um duo) ou dos Cabaret Voltaire. Os Rum State são o americano Mark Morgan na guitarra, e o norueguês Gaute Granli nas eletrónicas. Fazem uma música intensa, dissonante, impregnada por reminiscências de aparente distúrbio psicológico, atiçando o calor das almas numa sala escura, ou numa tela de cinema imaginária onde passam as sequências mais emblemáticas de Estrada Perdida. A guitarra elétrica é um corpo que se contorce numa dimensão sónica que causa algum desconforto, enquanto que a maquinaria eletrónica é uma hesitante disposição frenética entre a loucura e o batimento cardíaco acelerado. Começaram com vozes, sem a intensidade dissonante dos instrumentos, e elas regressaram para finalizar um set de duração bem medida. Mais seria um sacrilégio.

O que não é muito comum (arrisca-se dizer de cor), são duos femininos a explorar as possibilidades de instrumentos DYI, métodos arcaicos de experimentalismo e manipulação eletrónica. As Mosquito Farm, de Maddie Banwell e Grace Black, vão certamente buscar conceitos aos primórdios das invenções eletrónicas de Delia Derbyshire e Daphne Oram, mas deixam-nos ficar em estado bruto, pulsando eletricidade e uma sensibilidade própria. Isto deixa-nos a ponderar a distância deste tipo de receita nas mãos de homens. Ora, da mesma forma que se vê com bons olhos a vontade de habitar estes territórios másculos com atitude punk, também se agradece a importação de sensibilidades e narrativas femininas para processos de tendência agressiva e industrial. Assim, num set de dinâmicas mecânicas suaves, há ainda o momento de prazer sonoro, quase voluptuoso, de amplificar o som de papel de pequenos chapéus de chuva de cocktail a serem abertos. Há aqui um diálogo imenso: o papel colorido de som minúsculo, mas especioso e quente; em contraponto com um instrumento de cordas arcaico a ser tocado com um arco de violino.

Esta sessão de comunicação auditiva não é apenas um concerto; é uma sessão para os futuros perdidos da música. Nas sombras deste espaço sonoro, vislumbramos os espectros do passado do punk e os fantasmas da inovação industrial. No entanto, no meio desta dança espectral, há uma luz, uma sugestão de algo por vir, algo que escapa ao nosso alcance, mas que persiste nesta oscilação entre o velho e o novo, o masculino e o feminino. Nesta liminalidade, confrontamos não apenas a música, mas a própria essência do que significa estar perto de uma revolução sonora ou, na melhor das hipóteses, de uma sinfonia cacofónica de possibilidade.

https://nolagosmusique.bandcamp.com/album/rump-state-retaliation-aesthetics
https://selnrecordings.bandcamp.com/track/pipes

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